
O Governo da Venezuela anunciou este sábado a deportação do empresário colombiano Alex Saab, no que representa um novo e decisivo capítulo do longo processo judicial que pesa sobre um dos principais operadores financeiros de Nicolás Maduro. Outrora protegido pelo regime, Saab caiu em desgraça após a captura do presidente venezuelano em 3 de janeiro, e foi detido em circunstâncias estranhas e sob total sigilo em fevereiro passado. Desde então, seu paradeiro e as acusações contra ele são oficialmente desconhecidos.
Depois de horas de rumores, o Serviço Administrativo Venezuelano de Identificação, Migração e Imigração (SAIME) divulgou um comunicado oficial no qual informou que a medida foi adotada “em conformidade com as disposições regulamentares da legislação migratória venezuelana”, e citou como motivação que Saab “está envolvido na prática de vários crimes nos Estados Unidos da América, como é público, notório e comunicacional”.
A entrega de Saab aos Estados Unidos já estava planeada, mas ocorreu este sábado depois de “estarem reunidas as circunstâncias adequadas” para a sua deportação, segundo fontes oficiais. Segundo estas fontes, o empresário colombiano foi acusado de vários crimes, não só nos Estados Unidos, mas também na Colômbia e na Venezuela. euou também acusam de estar por trás de uma campanha difamatória contra a liderança chavista, acusada de trair Nicolás Maduro.
Saab construiu uma estreita relação pessoal com Maduro e sua esposa, Cilia Flores, até se tornar um dos símbolos mais reconhecidos daquela época. Estendeu a mão ao regime quando este foi assediado por sanções internacionaisdívidas acumuladas e uma crise económica sem precedentes: triangulou mercadorias, obteve alimentos de qualidade duvidosa para os programas sociais do chavismo e operou nas sombras de um sistema que dependia cada vez mais dos seus improvisos. Durante anos ele foi identificado como a principal figura pessoal de Maduro, acumulando uma fortuna estimada em mais de US$ 1 bilhão enquanto a Venezuela afundava na escassez.
A carreira judicial de Saab é uma das mais turbulentas no ambiente do chavismo. Em 2019, os Estados Unidos o sancionaram por supostamente pagar subornos para obter contratos com o governo venezuelano sem licitação. Em 2020 foi detido em Cabo Verde a pedido das autoridades norte-americanas e em outubro de 2021 foi extraditado para aquele país. Ele estava viajando com passaporte diplomático venezuelano.
Maduro respondeu com uma campanha sem precedentes exigindo a sua libertação, declarando-o diplomata oficial e enchendo as ruas da Venezuela com o seu nome.
Após uma longa batalha jurídica, foi libertado em dezembro de 2023 no âmbito de um acordo de troca de prisioneiros com a Venezuela, regressou ao país e foi incorporado ao Governo numa função económica fundamental, o que gerou críticas tanto de setores da oposição como de analistas internacionais. Saab atuou como Ministro da Indústria e Produção Nacional da Venezuela entre outubro de 2024 e janeiro de 2026. A presidente responsável, Delcy Rodríguez, destituiu-o do cargo em 16 de janeiro de 2026, após fundir essa pasta com o Ministério do Comércio Nacional.
De fabricante de chaveiros em Barranquilla a ministro em Caracas, a história de Alex Saab é a de um empresário comum que encontrou na Venezuela de Chávez e Maduro o cenário perfeito para se tornar o mais discreto e poderoso motor financeiro do chavismo. A partir daí construiu um império paralelo, que ruiu pouco depois de Maduro ter sido capturado pelos soldados americanos. Sua prisão, cercada de mistério e nunca confirmada, marcou o fim de uma era.
Gerardo Reyes, o jornalista que o investigou mais a fundo, certa vez definiu Saab como um náufrago profissional. “Quando todos pensam que ele se afogou, ele aparece chapinhando em algum lugar”, escreveu ele. Mas desta vez, a única tábua de salvação que lhe resta pode ser aquela que ele nunca quis usar: sentar-se perante a justiça americana e falar sobre aqueles que o tornaram intocável.








