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Guatemala negocia com os Estados Unidos um plano militar de “cooperação” contra o tráfico de drogas | Internacional


A Administração Trump e a Guatemala estão negociando um plano de “cooperação” para combater o tráfico de drogas em território guatemalteco, segundo informou esta quinta-feira o presidente Bernardo Arévalo. Arévalo falou aos repórteres na Cidade da Guatemala depois O jornal New York Times assumiu em informações apoiadas por fontes anônimas em Washington que um acordo entre ambas as capitais para lançar ataques conjuntos em território guatemalteco contra gangues criminosas supostamente dedicado ao tráfico de drogas Estava fechado.

O presidente da Guatemala confirmou parte da informação do jornal nova-iorquino. “O que fizemos”, disse ele, “foi pedir cooperação ao governo dos Estados Unidos para apoiar estas operações lideradas pelas forças guatemaltecas no âmbito da luta contra as redes de tráfico de drogas”.

Seria, acrescentou o presidente, uma questão de apoio no combate aos cartéis. “E isso vai implicar ter acesso a equipamento, ter acesso a formação, ter acesso a especialistas para apoio, por exemplo no planeamento de operações a nível estratégico ou a nível tático”, especificou Arévalo, pouco antes de o seu Governo publicar uma declaração contundente em X.

Antes da intervenção de Arévalo, uma fonte do seu governo, que falou ao EL PAÍS sob condição de anonimato, disse que Washington vem “exercendo grande pressão há dois meses”. “O que nos ofereceram foi selecionar um ou dois locais para realizar os bombardeios e transmitir tudo pela televisão. Mas deixamos claro que isso não vai acontecer. Uma força militar dos EUA não pode operar no país, simplesmente porque é inconstitucional”, afirmou.

Segundo este depoimento, a pressão do Departamento de Defesa dos EUA contornou os protocolos diplomáticos para ir diretamente a Arévalo. “As conversas têm sido contínuas e lideradas pelo Ministro da Defesa da Guatemala [Henry Saenz] e até mesmo pelo presidente. Mas não houve uma única reunião para refinar os termos, porque missões militares não serão permitidas. O que existe, e sempre existiu, são operações conjuntas com agências como a DEA, o FBI ou o HSI [Oficina de Investigaciones de Seguridad Nacional]“, disse a fonte.

Em declarações a este jornal na Cidade da Guatemala, Saenz insistiu que as operações serão lideradas pelo seu Exército. “Não houve nenhum pedido para que os militares viessem participar das operações. E não vamos mudar a linha”, concluiu.

As aspirações de Washington para a Guatemala fazem parte de uma política agressiva na América Latina, que, baseada em execuções extrajudiciais de tripulantes de alegados barcos de droga (pelo menos 190, até à data) nas águas das Caraíbas e do Pacífico ou em bombardeamentos no Equador, ressuscitaram os ecos da relação traumática dos Estados Unidos com o que viu durante décadas como o seu “quintal”: do Doutrina Monroe do século XIX, com sua “América [el continente] para os americanos [los estadounidenses]”à chamada “guerra às drogas”, lançada pelo presidente Richard Nixon no início da década de 1970 e que durante décadas trouxe mais problemas de violência e corrupção do que soluções.

A negociação com a Guatemala está enquadrada em Washington, que já iniciou o compromisso do Equador de permitir operações militares no seu território, numa estratégia em que Então seria a vez de Honduras, país que a Administração Trump está a cortejar, depois de conseguir que o seu candidato favorito, Nasry Asfura, ganhasse as eleições contra todas as probabilidades.

Conselho centro-americano

Com estas duas peças-chave do tabuleiro centro-americano em sua posse e o apoio cego de Nayib Bukele de El Salvador, o cálculo é, segundo fontes diplomáticas na capital dos EUA, que a pressão forçará o México a aceitar um esquema de operações conjuntas, e até tropas no terreno e ataques de drones. Todas as opções que a presidente Claudia Sheinbaum rejeitou veementemente até agora.

Esta pressão sobre o vizinho do Sul tem sido acompanhada de medidas, também inusitadas, como a acusação, no final de Abril, de Governador de Sinaloa, Rubén Rochabem como um senador do Morena, o partido governista, e oito outras autoridades. Eles são acusados ​​de conluio com o cartel fundado pelo capo Joaquín El Chapo Guzmán e seu parceiro Ismael Poderia Zambada permanecer no poder e receber outros favores.

O Equador assinou o seu acordo com Trump no início deste ano, pouco depois de as forças especiais dos EUA terem entrado em Caracas e detido o presidente venezuelano Nicolás Maduro e a sua esposa, Cilia Flores, desrespeitando as regras do direito internacional. Ambos aguardam julgamento numa prisão de Nova Iorque, acusados, entre outros, de crimes de tráfico de droga.

Numa recente visita a Washington, o presidente do Equador, Daniel Noboa, firme aliado de Donald Trump, defendeu a colaboração com os Estados Unidos, enquanto no Capitólio um grupo de democratas exigia a suspensão de operações militares conjuntas contra supostos traficantes de drogas.

Noboa fez o seu política dura contra o crime organizado −que multiplicou a violência no país nos últimos anos (de ter uma das taxas de homicídios mais baixas da América Latina, passou em cinco anos a ultrapassar 50 por 100.000 habitantes em 2025)− um dos seus trunfos. “Estamos em guerra”, argumentou o presidente andino na capital dos EUA.

Tanto Guatemala como Equador (assim como Honduras e El Salvador) estão entre os signatários do acordo que deu origem a uma associação chamada Coalizão Anticartel das Américas, que Trump lançou numa reunião em março de 2026. Faz parte do Escudo das Américas, à frente do qual o presidente dos Estados Unidos colocou a defenestrada Kristi Noem, ex-secretária de Segurança Interna e rosto da brutal política de imigração do último ano nos Estados Unidos.

Bernardo Arévalo não compareceu à cúpula realizada na Flórida, mas enviou em seu lugar altos funcionários guatemaltecos.

No caso de Honduras, existe o paradoxo de que enquanto Washington pressiona o país centro-americano a fazer mais na luta contra o tráfico de drogas, Trump perdoou um dos seu ex-presidente, Juan Orlando Hernández. Ele cumpria pena de 45 anos por cumplicidade no contrabando de centenas de toneladas de cocaína para os Estados Unidos.